CRÔNICAS DE MINAS 

“O radinho de pilha vermelho”

Frt. Dione Afonso, SDN – Missionário Sacramentino de Nossa Senhora 

Alô dona Onilia!

Bom dia!

E a vizinha?

Já está de pé?

Dona Onilia, e aquele café?

Já acendeu o fogão à lenha?

Aquele cafezinho moído na hora no moinho atrás da porta da despensa, heim, dona Onilia? Huuuummmmm….

O cheirinho chega invadir aqui os nossos estúdios heim dona Onilia!

E o sr. Valtair, dona Onilia?

Tá arrumando o bornal pra ir trabalhar, neh?!

Esse madruga, heim, dona Onilia…

 

 

Antes do primeiro raio de sol, antes do primeiro cantar do galo, dona Onilia liga seu radinho à pilha instalado na prateleira de madeira do lado do fogão à lenha.

Põe a broa de fubá pra assar e, na chaleira, a água pra ferver. Um “Bom Dia Madrugada” soa estrondante do radinho. O locutor das 05h da manhã começa a contar a história de dona Onilia.

Ela se embala no sabor do café preto e com pouco açúcar e no modão do Trio Parada Dura que desperta o restante da família.

Com o bornal arranjado, sr. Valtair entra na cozinha e já prepara o seu primeiro gole de café preto antes de subir a serra da lavoura.

Mas, do rádio ele precisa ouvir sempre duas coisas: se naquele dia houve alguma nota de falecimento e, a cotação do mercado cafeeiro. Era de extrema importância saber se naquele dia o trabalho ia render ou perder dinheiro. Se o café estava bom ou ruim de preço.

Nas danças das panelas dona Onilia entoa Amado Batista com o “Som do Meio Dia”. O locutor toca “No Hospital”, e encontra na cozinha da casa uma vocalista tão boa quanto o cantor consagrado. Os olhos de dona Onilia brilham. É como se seu coração estivesse sendo entoado e embalado pelas ondas que aquele radinho de pilha passava.

Os filhos, ao chegarem da escola encontra a comida ainda quentinha e saborosa graças ao calor do fogão à lenha e do Pop Rock do radinho de pilha vermelho de 30 centímetros de comprimento, 7 de altura e 5 de largura.

Mas os filhos gostam de ondas sonoras mais agitadas. Gostam de ligar pro locutor da tarde e pedir que toquem suas emoções e sentimentos.

A pequena pede Sandy e Júnior e arrisca seus passinhos na coreografia do “Dig Dig Joy”; a mais jovem tem um coração mais romântico e com o amor à flor da pele, seus olhos brilham quando ela pede pro locutor entoar as melodias do grupo KLB; e, os dois adultos, antes de se juntarem ao pai na lavoura arriscam o locutor tocar um Zezé de Camargo e Luciano e um Roupa Nova… Dona Onilia entra na dança, tira a poeira do radinho e varre o chão da cozinha. Troca o radinho de lugar, e agora ele ocupa o batente da janela e, com a casa organizada, repousa na fresca da varanda aguardando as notícias de “Última Hora” que o locutor de voz grave irá comunicar.

Mas, sem demora, corre para a horta nos fundos da casa e já começa a se aprontar pro jantar. A turma vai chegar faminta da lavoura. Um café novo saindo… fresco… preto… e saboroso. E o radinho de pilha é também o que define a hora de dormir.

Sobre a pequena, dona Onilia diz que o locutor já encerrou seu programa da noite, então, é hora de dormir. Os outros a essa hora enfrentam a escola, enquanto sr. Valtair, diante do radinho a pilha, toma seu último copo de café, ouve as palavras do santo padre para aquela noite e, junto de dona Onilia rezam uma Ave-Maria e se despedem do dia.

A noite cai. Os moleques chegam da escola, trocam a frequência do radinho, ouvem duas músicas internacionais, do Rei do Pop, dos Beatles se despedem do locutor e desligam o radinho.

Um radinho vermelho, de pilha na cor e tom do coração.